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O meu turismo religioso

por FS, em 16.06.15

O que mais gosto nas viagens é de sentir as gentes, os hábitos e os costumes... Ah, e a gastronomia também (mesmo que implique o recurso a pensos gástricos e pastilhas Rennie em barda)! Ver, sentir, cheirar e saborear (só falta um sentido, eu sei, mas não costumo tactear... Não vão os locais levar a mal)! E quanto mais intensos, melhor! Overdoses de sensações, mesmo que sejam de tranquilidade...

 

Sempre de forma controversa, a fé e a religião continua a ser um dos grandes "motores" da humanidade, com demonstrações variadas de devoção e de paixão. E se há manifestações mais "hostis" de fé, há outras menos agressivas, e cujas características singulares as colocam na categoria das manifestações culturais (vá, este é o meu ponto de vista...). Um destes casos é a Semana Santa de Sevilha.

Provavelmente por causa da minha educação judaico-cristã (cuja prática religiosa terminou na adolescência, mas cujos valores, grosso modo, ficaram...), há anos que me intrigava este "fenómeno". O que leva dezenas de milhar de pessoas a verem esta manifestação de fé? O que leva outros milhares, desta feita andaluzes, a preparar meticulosamente (durante um ano) uma semana e meia de procissões e romarias? O que os move? O que sentem? Que emoções estão por detrás? Foram estas perguntas que nos levaram a deixar as crianças com os avós e rumar ao Sul, já quente nessa época do ano (outro atractivo, claro).

 

Cinco horas de carro levaram-nos a chegar à capital andaluza ao fim da tarde, tal como eu gosto de chegar aos locais que não conheço. Dá-lhes uma aura de mistério e encanto, não nos revelam tudo à chegada e deixa-nos na ânsia de descobrir algo mais na alvorada seguinte. Mas Sevilha foi excepção a esta regra... Sevilha recebeu-nos no seu maior explendor de beleza e de paixão... E arrebatou-nos ao primeiro olhar!

À medida que entravamos na cidade, a multidão ia aumentado até que nos fez parar, de tão densa se havia tornado. Uma horda de gente de todas as idades, barulhenta como qualquer multidão é. Até que de repente um "shhhh" vindo de algures fez calar aquela gente e abriu espaço ao barulho de velas a bater, de forma ritmada, na calçada. Ao mesmo tempo, um cheiro a incenso começou a inundar o ar à nossa volta. Decidimos aguardar. E não esperámos muito para ver, ao virar de uma estreita esquina, surgir umas silhuetas roxas, de capuz fusiforme, segurando velas do seu tamanho, que agora na noite cerrada se faziam notar melhor. E vão passando às centenas, à nossa frente.

Perdemo-nos a olhar para cada pormenor: as crianças, com enormes bolas de cera nas mãos, pedem aos nazarenos (estas figuras encapuçadas) que passam um pouco mais de cera; as janelas e varandas das casas mostram, orgulhosas, os mantos mais trabalhados e vistosos; os símbolos das confrarias bordados nas vestes. Tão embrenhados que estamos nestas descobertas que nem reparamos que ao fundo já se ouve o toque, quase marcial, dos tambores, a marcar a lenta cadência de passo.

O cheiro do incenso intensifica-se (e a mim, este cheiro provoca-me arrepios bons...). E como que a anunciar a chegada do andor, o som metálico das trompetes quebra o domínio dos tambores. O resto da banda que segue o enorme andor, ainda antes de se fazer ver, faz-se ouvir. O tom da marcha processional envolve-nos e leva-nos ao que representa a Semana Santa: a paixão de Cristo. É sofrida... Chora... Geme... E não há HD, Hi-Fi, Doulby Surround, ou outra que tal tecnologia que o bata... Está ali, ao vivo e a cores, em carne e osso, a ecoar nas velhas ruas estreitas! A fazer-nos arrepiar de emoção!

O enorme andor aproxima-se, num movimento balanceado e estudado ao pormenor. Uma espécie de altar com dois metros e meio de largo e quatro de comprimento, caminha na nossa direcção. Os seus quase 5 metros de altura fazem com que passe rente às janelas do primeiro andar das casas vizinhas. Nas varandas, os braços esticam-se para tocar no palio que protege a imagem da Virgem. Em baixo, nota-se a emoção do momento na cara de quem assiste. Os olhos empapuçados, quase a rebentar em lágrimas. As mãos fiéis que vão tocando no andor ao passar, em busca de uma benção.

 

Sevilha2b.jpgSevilha1b.jpg 

 

 Uma pancada forte e seca, parecida à de uma velha maçaneta de porta faz parar a Virgem, e o andor assenta ruidosa e firmemente no chão. De uma varanda próxima, que ainda assim não conseguimos identificar, surge uma voz que canta os primeiros versos de uma saeta... O silêncio, fora do normal para uma multidão daquelas, é apenas quebrado por aquela voz masculina, à capela, forte, emocionada e cheia de vibratos, ao bom jeito andaluz. A letra torna-se imperceptível por causa do sotaque cerrado... Mas tanta devoção e alma no cantar não precisa de tradução.

Ouve-se agora o suave murmurar dos mais de 40 homens que suportam, debaixo do andor com os seus ombros, aquele peso, e o fazem como que deslizar. Homens de ar rude, enormes, compactos e de torso marcado pelo trabalho, estes costaleros. Saiem uns para dar a vez a outros, que ainda há muitas horas pela frente. Ao cruzar, abraçam-se, beijam-se, felicitam-se... Agradecem, emocionados, ao capataz que os guiou até ali e os levou a esta glória. Emergem da escuridão do interior do andor de sorriso na cara, satisfeitos e orgulhosos... O que os move, pergunto eu... A fé? O orgulho? Um pouco de ambos, talvez...

fotografia(a).jpg

 

A Semana Santa em Sevilha arrebatou o nosso coração. Do Domingo de Ramos até ao Domingo de Páscoa, com uma média de 10 procissões por dia, tendo como ponto alto a madrugada de Sexta-feira Santa, la Madrugá (que não perdemos, claro, tal era a nossa curiosidade em relação à afluência de pessoas às 4 horas da manhã para adorar a passagem da Virgen del Rocio... e estava "atacado" de gente!). São dezenas de confrarias, com diferentes origens, que todos os anos levam as suas padroeiras, às costas, à Catedral de Sevilha. Avós, pais e netos, entregues da mesma forma a perpetuar este fenómeno.

 

Para programar uma eventual ida... www.semana-santa.org

Para mim, a melhor opção de alojamento é perto da confusão (melhor até, no meio), mas com carácter... e há imensas opções... esta é uma delas www.hotelcasa1800.com

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